O SAMBA SARAU
O nosso Samba Sarau aconteceu e foi pura emoção! Um encontro vibrante que reuniu sambas tradicionais, dança, poesia e os relatos poderosos das nossas matriarcas — Josefina Nascimento e Sônia Eugênio.
A roda girou com alegria, força e ancestralidade. As palavras ecoaram com verdade, os corpos celebraram com liberdade, e o público se emocionou com cada gesto, cada nota, cada história.
Foi mais do que um show. Foi uma festa da memória viva, da cultura popular, da beleza que nasce quando mulheres conduzem com alma e sabedoria.
Gratidão a todas e todos que estiveram presentes, vibrando com a gente, construindo esse momento inesquecível. E a quem não pôde ir, a gente compartilha aqui um pouco dessa energia — que segue reverberando em cada canto de Indaiatuba.
Confira a potência do que vivemos:
BATUQUE, MEMÓRIA E ANCESTRALIDADE
Batuque é a África! É o amanhecer do sábado pra domingo, cantando e batucando...batendo continuamente para os orixás, para juntar os amigos, para lembrar dos mais velhos, para celebrar. Assim, a história do batuque é contada pelos batuqueiros e batuqueiras que rememoram os velhos tempos, nas rodas dos terreiros e continuam uma tradição que não se perdeu.
São histórias narradas, a partir de uma memória ancestral, resultado de uma herança de resistências e de criação, construído pela luta e experiências iniciada em outras terras, nos reinos africanos. Assim como nos ensina Hampate-bâ "as tradições orais na África representam espaços simbólicos de preservação de dados históricos e de interpretação desses mesmos dados".
Essa memória viva iniciada em reinos africanos constituiu-se a base da transmissão pelos mais velhos, que com experiência e resiliência, se tornaram os(as) guardiões(ãs) de um patrimônio ancestral transmitido de geração para geração.
Assim, o batuque pode ser entendido como uma síntese de elementos das tradições e memórias africanas e outras formas de expressão e sistemas simbólicos com que os negros da diáspora se confrontaram no Novo Mundo. São conexões que se manifestam como traços de uma memória africana, acessada e recomposta entre os(as) negros (as) através dos saberes orais acústicos em torno das relações de família, amizade, trabalho e música, salões de dança, cordões carnavalescos, escolas de samba, festas e religiosidades. (Azevedo, 2014, p. 317) Nesse processo, os significados culturais de origens africana foram reinventados e transformados pelos escravizados e seus descendentes, gerando um processo híbrido que caracterizou as manifestações afro-brasileiras, representando saberes ancestrais dos povos de tradições orais aqui escravizados.
A tradição do batuque foi trazida pelos povos de origem Banto vindos de Angola e do Congo e deu origem a diversos outros ritmos como o samba e o jongo presentes em todas as regiões do Brasil. Em São Paulo, a manifestação foi trazida pelos escravizados que vieram da região nordeste do Brasil para trabalhar nas fazendas de açúcar e de café e se manteve após o fim da escravização, com a fixação de grupos nas cidades do interior paulista, fazendo com que algumas regiões se tornassem conhecidas como as "zonas batuqueiras" abrangendo algumas cidades como Tiête, Laranjal Paulista, Porto Feliz, Pereiras, Capivari, Botucatu, Piracicaba, Rio Claro, São Pedro, Itu, Tatuí Maristela, Jundiaí, Indaiatuba, Cerquilho entre tantas outras.
De acordo com a Professora Olga von Simson, "entre as bagagens trazidas pelos escravizados, na longa viagem por mar e terra veio também os saberes e os hábitos culturais que eles adquiriram na sua infância e juventude vividas no Nordeste. Entre esses saberes culturais certamente chegou também o de cantar e dançar. A umbigada é uma característica do batuque paulista, mas também aparece no Jongo ou caxambu , no semba , no samba-de-roda ou de terreiro, no tambor-de-crioula , no lundu, na pernada , no coco, no samba campineiro ou de bumbo entre outras danças trazidas pelos africanos ou transformadas aqui pelos negros escravizados. Em algumas dessas danças o choque de umbigos foi substituído pelos gestos, pelos chapéus, pelos lenços, pelos bumbos.
Ao longo do século XIX, o termo "batuque" foi compreendido a partir do sentido de dança acompanhada de instrumentos de percussão e canto e por isso sempre relacionado ao sentido de reunião, roda, encontro e baile. Contudo, esses espaços foram se transformando em importantes referências de resistência e criação..
Neste contexto, o Samba de Bumbo, também conhecido como Samba de Terreiro ou Samba Rural Paulista, marcou sua presença nas cidades do interior paulista, como Campinas e Itu, assim como em Indaiatuba , que pertenceu ao território de Itu, até 1859. Segundo registros, os escravizados que chegavam em Indaiatuba vinham das diversas grupos como Benguela, Congo, Angola, Mina, pertencentes ao povo banto. A partir desse legado, as cidades se toraram ponto de encontro de diferentes grupos que traziam seus estilos de dança, seus ritmos, cantos fortalecendo memórias e histórias, possibilitando experiências de socialização e de transmissão de valores, nas quais foram construindo identidades que têm por base a ancestralidade, a memória e a oralidade
O projeto Samba de Dagmã, ao reconstituir essas histórias, a partir das memórias de homens e mulheres que se constituem sujeitos desse universo cultural, torna-se fundamental para construir a identidade do grupo, que com as lembranças dos cantos, dos desafios, das danças, dos festejos retomam o universo do batuque em um tempo histórico que não cessa;
Profª Draª Claudete de Sousa Nogueira
Unesp, Araraquara

SAMBA SARAU | 11 de abril, 2025
📍 Casarão Pau Preto | Indaiatuba/SP
SAMBA SARAU | 30 de maio, 2025
📍 Casarão Pau Preto | Indaiatuba/SP







