
O MINIDOCUMENTÁRIO
AS MEMÓRIAS NO SAMBA DE DAGMÃ TÊM CADÊNCIA
Aline Antunes Zanatta
Mestre em História Cultural/ UNICAMP. Educadora do Museu Republicano de Itu/MP/USP.
Integrante dos grupos de cultura popular Samba de Bumbo de Itu e Caixeiras das Nascentes/ Campinas.
Samba de Dagmã traz de forma pioneira as memórias das matriarcas Josefina Nascimento e Sônia Eugênio da cultura afro-brasileira para contar sobre a história do samba na cidade de Indaiatuba.
"A memória das mulheres é verbo. Ela está ligada à oralidade das sociedades tradicionais que lhes confiava a missão de narradoras da comunidade aldeã" (Perrot: 2017). No ocidente, segundo Michelle Perrot (1975), foi provavelmente no século XIX que a palavra feminina foi desqualificada pelas formas de comunicação modernas e registros.
Marginalizadas dos livros de história considerados oficiais, as mulheres, em especial, as pertencentes à cultura afro-brasileira, foram silenciadas durante o longo período frente à escrita e memórias masculinas.
Este projeto, contudo, não corrobora com tais silenciamentos, tampouco se detém em apresentá-las enquanto vítimas. Compromete-se, por sua vez, em rastrear as memórias individuais das matriarcas Josefina e Sônia, cujas trajetórias de vida atravessam a cultura e a formação social da cidade de Indaiatuba.
A memória no Samba de Dagmã possui cadência, em especial a das Matriarcas. Sobre as mulheres, cabe lembrar que a estrutura econômica baseada nas atividades agrárias dos latifúndios, a escravidão indígena e africana e a concentração de renda nas mãos de poucos produziram no Brasil a sociedade do tipo patriarcal (Samara, 1998). Nessa organização conjugal, as mulheres estariam reduzidas ao trabalho doméstico, cuidados do lar e educação dos filhos, enquanto os homens atuavam no mundo público e gerenciavam o patrimônio familiar.
Mariza Corrêa, ao repensar a família patriarcal brasileira, observou que a história das formas de organização familiar no Brasil não esteve limitada em ser a história da família patriarcal, "um tipo fixo onde os personagens, uma vez definidos, apenas se substituem no decorrer das gerações, nada ameaçando sua hegemonia, e um tronco de onde brotam todas as outras relações sociais".
Os estudos empreendidos no século XX sobre a história da família revelam a pluralidade de estruturas familiares, indicando as mulheres em diversas situações cotidianas e de sobrevivência, chefiando os seus fogos e gerenciando o patrimônio ou as práticas de seus familiares e comunidade, atuando nos espaços privados e públicos.
Cunhado no século XIX, matriarca é o termo utilizado para apresentar mulheres que assumem uma posição de responsabilidade social, cultural e econômica para a preservação e sustentabilidade de um grupo ou comunidade.
Em Samba de Dagmã, por sua vez, os olhos da história encontram nas recordações das matriarcas Jozefina Nascimento e Sônia Eugênio caminhos de existências, solidariedades e resistências afro-brasileiras que tencionam os esquecimentos endossados pelas narrativas eurocêntricas e hegemônicas.
Por outro lado, ao examinarmos a etimologia da palavra re-cor-dar, com sugeriu Olga R. de Moraes von Simson (2003), compreendemos que ela significa "colocar de novo no coração". Neste sentido, Samba de Dagmã abre seu coração para escutar as ricas e profundas recordações de Jozefina e a potência criadora de Sônia.
Conforme sugeriu a pesquisadora Von Simson (2003), a memória individual é aquela preservada pelo indivíduo e se refere às suas próprias vivências e experiências, mas, sobremaneira, conserva também a memória do grupo social a que este individuo pertence e onde ele foi socializado.
Escutá-las, portanto, é produzir fontes até então invisibilizadas e buscar compreender as memórias sobre a cidade, do cotidiano e da vida pública e privada, a partir das relações de classe, gênero e raça. Neste sentido, seguindo a metodologia da História Oral, os relatos individuais produzidos pelas matriarcas Josefina e Sônia foram gravados, levando-se em conta que a memória pessoal também é social, familiar e grupal (quem fala, de onde fala, para quem fala) (BOSI, 1979).
Logo, ao prontificar-se a ouvir duas matriarcas negras de Indaiatuba por meio de entrevistas individuais gravadas e rodas de conversas abertas ao público, Samba de Dagmã compartilha fontes inéditas sobre a história de Indaiatuba.
Como bem apontou Marcela Boni Evangelista (2017, p. 125), a metodologia da História Oral torna-se instrumento eficiente para inúmeros trabalhos "que fogem do teor oficinal das fontes produzidas em ambiente institucional e estritamente escrito".
A apresentação do audiovisual enquanto resultado final do projeto, por um lado, reconhece e torna público o que sempre existiu de valioso na trajetória dessas mulheres e, por outro, evidencia a identidade artística de Marina Costa, proponente do projeto, cuja produção vincula-se à tradição oral e respeito à ancestralidade.
Nas sociedades de tradições orais, é o contador de histórias o responsável pela preservação da memória social, pois todas
as crianças do mundo aprenderam, geralmente da boca de suas mães, parlendas, canções, contos, que constituem o fundo cultural comum a seu grupo linguístico, assim como, em seguida, aprenderão os provérbios, as fórmulas cristalizadas etc. Algumas dessas formulas se fixam definitivamente e se transmitem sem variação alguma. É, por exemplo, o caso das formas cantadas, nas quais a relação nota sílaba impõe certa fixidez. [...] Em outras formas, a liberdade do contador é muito grande e a permanência se limita ao conteúdo semântico e a algumas fórmulas chave" (CALVET: 2011, p. 35)
Na encruzilhada proposta pela artista Marina Costa, as memórias individuais ancestrais encontram-se e ganham cadência, os corpos negros marcados pelos rastros da vida traçam caminhos diversos ao possibilitar uma costura sensível de escuta e produção artística.
Nesta escuta sensível, as memórias das matriarcas Zefina Nascimento e Sônia Eugênio, presentes no corpo, gestos, sons e palavras encontram no Samba de Dagma, tempo e movimento para serem contadas, circunscrevendo um território fértil para a transmissão da memória social da cidade de Indaiatuba.
REFERÊNCIAS:
BOSI, Ecléa. Memória & sociedade: lembrança de velhos. São Paulo, T.A. Editor, 1979.
CORRÊA, Mariza. Repensando a Família Patriarcal Brasileira. In: Colcha de Retalhos: Estudos sobre a família no Brasil. Campinas. Editora da Unicamp. 1981.
CALVET, Louis-Jean. Tradição oral e tradição escrita. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
EVANGELISTA, Marcela Boni. Ser mãe ou não ser: Afinal, qual é a questão? A história oral desvendando o mito do amor materno. In: História Oral e história das mulheres: Rompendo silenciamentos. São Paulo: Letra e Voz, 2017.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Liv Sovik (org); Trad. Adelaine La Guardia Resende. Belo Horizonte: Editora UFMG; Brasília: Representação da Unesco no Brasil, 2003.
PERROT, Michelle. Práticas da Memória Feminina. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 9, n. 18, p. 9-18, ago-set 1989.
SAMARA, Eni de Mesquita. As mulheres, o poder e a família: São Paulo, século XIX. São Paulo: Marco Zero, Secretaria da Cultura de São Paulo, 1989.
SAMARA, Eni de Mesquita. Família, mulheres e povoamento: São Paulo, século XVII. Bauru: Edusc, 2003.
SAMARA, Eni de Mesquita. Lavoura Canavieira, Trabalho Livre e Cotidiano. São Paulo: Edusp, 2005.
VON SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes. Memória, cultura e poder na sociedade do esquecimento. Augusto Guzzo Revista Acadêmica, São Paulo, n. 6, p. 14-18, maio 2003.









